sexta-feira, junho 29, 2007

A Arte de perdoar

A Arte de perdoar



Em todos os caminhos de crescimento humano, tanto psicológico quanto espiritual, uma ênfase especial é dada à questão da mágoa. Não só pelo sofrimento que ela produz, mas também pelo transtorno que provoca nos relacionamentos .

Qualquer que seja o nome que damos a esse sentimento, seja mágoa, rancor, ressentimento ou vingança , ele se caracteriza pela amargura na alma , uma sensação de injustiça a partir do mal que alguém nos fez .

Além da dor, o componente fundamental da mágoa é a sua permanência . É uma incapacidade de parar de sofrer , mesmo com o passar do tempo. E como é impossível levar nossas vidas sem sermos machucados pelas outras pessoas , de vez em quando, tendo em vista a imperfeição da natureza humana, corremos o risco de acumular feridas e nos tornarmos pessoas amargas, desiludidas e sofredoras .

A mágoa é uma forma de guardarmos para depois coisas que não queremos resolver na hora . Uma das características da vida é que ela só pode ser vivida no presente . O passado e o futuro, apesar de existirem na nossa cabeça , não têm existência real . Seria uma grande tolice imaginar que podemos respirar para amanhã , que podemos viver o ontem . O natural é que as coisas sejam vividas, mesmo as ruins, no momento em que elas ocorrem .

O sentimento de raiva , que é natural, tem o objectivo de nos ajudar a resolver os nossos problemas, incluindo as ofensas, traições ou quaisquer outros actos que as pessoas produzam. Quando somos inibidos na nossa raiva, quando temos medo de expressá-la, ela esfria dentro de cada um de nós e se transforma em mágoa .

Mágoa é toda a raiva que ficou para depois . É a raiva dentro da geladeira. É o medo de resolvermos nossos conflitos com outras pessoas no momento em que aparecem.

Guimarães Rosa define, magistralmente, a mágoa no seu livro Grande Sertão Veredas: " Mágoa é lamber frio o que o outro cozinhou quente demais para nós ".

A pessoa rancorosa apresenta as seguintes dificuldades :

§ aceitar a imperfeição humana, idealizando uma realidade onde as pessoas nunca falhem com ela ;

§ expressar a raiva na colocação clara do seu desagrado diante do outro:

§ viver o momento presente, sendo extremamente apegada ao passado .

Por isso, quem guarda mágoa , em geral, é também um saudosista e culposo , características dos que vivem no passado .

Uma vez, porém, instalada a mágoa, só nos resta uma saída: o perdão . Se a mágoa nos envenena e machuca , o perdão nos alivia e cura .

Pode-se medir a sanidade psicológica de alguém por sua capacidade de perdoar . O perdão é a ponte que nos faz sair da depressão para a alegria : " Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofendido ".

Por que tanta dificuldade em perdoar? Porque há equívocos em torno do perdão que dificultam o exercício dele.

Primeiramente há uma crença falsa de que o beneficiário do perdão é a pessoa que nos ofendeu .

O perdão é algo bom para quem perdoa .

Perdoar é ficar livre da dor causada pelo outro . É ficar livre daqueles que nos magoaram . É um presente dado a mim mesmo .

Em segundo lugar, há uma ideia igualmente falsa de que, ao perdoarmos, devemos esquecer o mal que nos fizeram e voltar a ter com a pessoa o mesmo relacionamento de antes .

Perdoar não é esquecer. É apenas parar de sofrer.

Devemos, porém, aprender com a experiência e podemos, a partir daí, escolher qual o relacionamento que teremos com o "ofensor".

Perdoar não significa fazer de conta que nada aconteceu . Pelo contrário, temos de levar em conta a experiência , revendo a relação, e por isso mesmo, nos livrando do sofrimento .

Perdoar os outros é o presente que oferecemos a nós mesmos.

Chega de carregar na alma as ofensas e os que nos ofenderam.

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