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quinta-feira, abril 26, 2012

As Tábuas de Nippur - Génesis (Parte 3)




O chanceler se apressou em receber pessoalmente o Rei e sua comitiva.



- Anu, meu irmão, que saudades. – Falou Enlil empolgado dando um forte abraço no Rei – Devia ter avisado que viria, teria preparado uma recepção à sua altura.



- Também estava com saudades Enlil, meu irmão. – Respondeu tristemente Anu. – Mas, creio o motivo de minha vinda a Nippur não seja agradável ao ponto de merecer uma recepção. Precisamos conversar imediatamente!



O Chanceler encaminhou o Rei para o seu gabinete, enquanto era preparada a estadia real. Ofereceu-lhe um drink e sentaram-se no confortável estofado onde o Chanceler gostava de relaxar.



- Muito bem então Anu, mate minha curiosidade. Qual seria o motivo de sua visita? – Perguntou cinicamente o Chanceler, como se não soubesse.



- Enlil, você sabe muito bem que, o que fez, seu crime é gravíssimo. E, você não está acima da lei! – Acusou o Rei.



- Anu, eu não cometi nenhum crime! – Respondeu calmamente o Chanceler.



- Criar vida artificial é crime inafiançável. E você sabe perfeitamente, afinal, você mesmo foi o redator desta lei.



- Por isso afirmo que não cometi nenhum crime. Venha comigo, preciso lhe mostrar algumas coisas em Nippur que vão vou provar que estou certo.



O Chanceler já havia preparado de antemão um veiculo para este “passeio”. Foram direto para as aralis, lá Enlil mostrou para o Rei a precária situação dos trabalhadores, que ainda não dispunham dos Lulus para ajudar, eles ainda estavam em período de avaliação. Anu aproveitou para cumprimentar Enki, que na época, ainda estava vivo, e que pode confirmar o que Enlil já havia falado sobre a situação dos mineiros. Depois foram para a cidade, que realmente estava agora, graças aos Lulu Amelus, começando a ter aparência de uma cidade. Mostrou, ao longe, este povo trabalhando, sabia que este era o motivo da visita do Rei a Nippur, falou sobre sua inteligência e como estão sendo úteis, e que em breve seriam encaminhados para as minas, para ajudar na mineração tão vital para manter a vida em Nibiru.



- Como pode ver Majestade – falou orgulhosamente Enki -, os Lulu Amelus são imprescindíveis para o desenvolvimento de Nippur e para salvação de Nibiru. Sem eles, estaríamos fadados certamente à extinção.



- Vejo que estes novos seres são, realmente, bastante úteis – respondeu o Rei –, mas isso não o inocenta por ter infringido a lei.



- Me desculpe, meu amigo, mas discordo. – Contestou Enlil - Em nossa constituição, existe uma cláusula, escrita pelos nossos pais. E ela me inocenta.



Enlil estava se referindo ao parágrafo que cita: “No iminente risco de extinção dos Anunnakis, poderão ser utilizados quaisquer meios possíveis, mesmo que contra a Lei Ambiental, desde que não haja outra solução possível e imediata”.



- Eu conheço bem as nossas leis Enlil. – Falou o Rei – E não vejo risco de extinção iminente para nosso povo.



O Chanceler levou o Rei para a espaçonave que estava pronta para levar o minério extraído para Nibiru. Seu compartimento estava carregado com apenas metade da carga suportada.



- Em todo este ano de Nibiru, somente conseguimos esta ínfima quantidade de minério. – Falou o Chanceler – O que tem aqui não é suficiente para manter nossa proteção térmica por mais de um ano, teremos que utilizar nossas reservas estratégicas. Agora as condições de mineração estão ainda piores, para o próximo ano, sem os Lulu Amelus, extrairemos ainda menos. Este planeta é muito gelado e nossos equipamentos, que possuem processador biológico não resistem ao frio, e nossa espécie, você sabe, também não. Sem a ajuda dos Lulu Amelus, e sem uma solução definitiva para o problema em nossa proteção térmica, fatalmente entraremos em extinção. – O Chanceler olhou com reprovação para o Rei, e concluiu. - Nossas reservas estratégicas suportarão até quando a falta de reposição?



O argumento foi convincente, Enlil estava certo. Havia risco para o povo Anunnaki, e depois da descoberta da abundância nas jazidas de Nippur, houve grande euforia e foram cortadas as verbas para pesquisa de uma solução definitiva para o problema da proteção térmica. Ninguém supunha quão difícil seria a extração do material. Ficou claro que, sem a criação dos trabalhadores não conseguiriam prosseguir com a mineração e, como conseqüência, seu planeta, e eles próprios, corriam sérios riscos.



O Rei sentiu um grande alivio em descobrir que Enlil estava certo. Não precisaria mais prende-lo e, agora, finalmente, pode relaxar e apreciar as belezas de Nippur, como o seu belíssimo e insólito, céu azul.



Ainda em Nippur, o Rei assinou uma lei regularizando a situação dos Lulu Amelus, mas incluiu uma ressalva: "Jamais poderiam ser levados para Nibiru. Deveriam permanecer trabalhando somente em Nippur". Com esta lei, muitos Anunnakis se candidataram para vir a Nippur. As últimas espaçonaves foram concorridas, situação que não acontecia antes. Agora iriam receber pela colonização, sem precisar realizar nenhum trabalho braçal, já que os Lulu Amelus os realizarão.



O Rei Anu se despediu com a certeza de que Nippur estava sendo bem cuidada por Enlil, e que não precisaria intervir.



Enlil soube por suas fontes que foi Anzu quem enviou escondido, um cristal de dados para um amigo seu em Nibiru, amigo este que também faz parte do mesmo grupo de ambientalistas que Anzu. Este incidente quase acabou com os planos de Enlil, que só conseguiu escapar, não só ileso, como fortalecido, graças a sua astúcia política.



O Chanceler inclina-se para trás em sua confortável poltrona e fala para si.



- É Anzu, você ainda vai pagar pelo que fez... ainda tenho planos para você. Aguarde!



Ninsun aproxima-se cuidadosamente da caverna.



Chega escondida, olhando em todas as direções tentando descobrir se não é uma armadilha, não vê ninguém. Respira fundo, toma coragem e entra na caverna. O Anunnaki continuava no mesmo lugar, deitado em um canto. Ela pega sua lança, que havia perdido no chão da caverna e vai, aos poucos, chegando mais perto, mas, sempre pronta para correr, se preciso for. O Anunnaki, penosamente, abre os olhos e tenta falar, mas não consegue. Ninsun lhe toca a testa, e constata. – Ele está febril!



- O que houve com você? – Pergunta temerosa ao convalescente Anunnaki. Ele, juntando o que resta de suas forças, simplesmente, aponta para seu abdômen.



Ninsun ergue a roupa do moribundo e constata chocada. – Ele está ferido.



O Anunnaki apresenta um machucado grande na altura de sua barriga. Já deve tê-lo sofrido há algum tempo, pois está bastante infeccionado, provavelmente é a causa da febre. Ninsun pega seu cantil e derrama um pouco de água na boca do Anunnaki.



- Ele estava com sede, como Gil sabia? – Pensou



Mas não havia tempo, o Anunnaki estava muito mal, ela tinha que ser rápida, ou certamente, ele morreria. Imediatamente, saiu da caverna e trouxe algumas ervas e uma esponja natural, da mesma que usa para desencardir Gil. Joga um pouco de água na ferida e esfrega com a esponja para limpar o ferimento. O Anunnaki geme de dor. Com a ferida bem limpa, Ninsun faz um curativo com ervas cicatrizantes.



Conhecera estas ervas com os kerabulus, e usava constantemente nos machucados conseguidos por seu filho. Acendeu um fogo e, em uma jarra de barro, colocou uma mistura de ervas antiinflamatória enquanto fazia uma compressa com água fria na testa do Anunnaki. Precisava ser cuidadosa, sabia do perigo de hipotermia. Os Anunnakis são muito sensíveis ao frio.



Quando a febre baixou, e o Anunnaki adormeceu, Ninsun voltou para cuidar de Gil.



Sua vida se transformou nesta rotina, de ir e vir entre uma caverna e outra. E, as cavernas não ficam próximas. Mas, planejou mantê-la até a recuperação do Anunnaki. Não iria mostrar Gil para o ele, e, também não poderia deixar Gil sozinho – Nippur é um planeta selvagem e perigoso.



Os dias foram passando, e o Anunnaki já apresentava claros sinais de melhora, apesar de que, demoram mais que os Lulus para se curar. Graças aos cuidados de Ninsun, agora, já consegue até comer sozinho e pôde, finalmente, agradecer pelo que Ninsun fez.



- Obrigado. – Disse o Anunnaki – Você salvou minha vida, serei eternamente grato!



- O que faz aqui? – Perguntou rispidamente Ninsun.



- É uma longa história.



- Felizmente não terei tempo para ouvi-la. Assim que estiver em condições de buscar seu próprio alimento, eu irei embora. – Virou-se e olhou para o Anunnaki com cara de ameaça. – Espero que possa retribuir o favor não contando a ninguém sobre mim.



Ninsun sai da caverna em busca de um pouco de água fresca para o Anunnaki, ela sabe que eles não são confiáveis, e não vê à hora de ir embora com Gil. Iria bem para o norte, onde é bem frio e longe dos Anunnakis.



Gilgamesh é uma criança obediente, mas como toda criança, é extremamente curioso. Precisava ver com seus próprios olhos, como era o tal Anunnaki e, pensou, não teria outra oportunidade.



Neste dia seguiu de longe a sua mãe, que foi em direção a caverna do moribundo. Ela entrou por alguns minutos e ele ficou observando escondido fora da caverna. Sua mãe saiu em direção à floresta - Deve estar indo buscar água. - Pensou. Era a hora que estava esperando.



Saiu do esconderijo e correu em direção à caverna.



Ao entrar, parou de repente, o que vira o deixou perplexo. O que é diferente do habitual sempre nos causa estranheza. Gil levou um susto, o Anunnaki também se assustou, porque Gilgamesh também é diferente, diferente dele e diferente dos Lulus. Possui as características físicas dos Anunnakis, porém havia cor em sua pele e cabelos.



O Anunnaki pensou em falar algo, mas, não teve tempo. Da mesma forma que Gil entrou correndo, Gil saiu correndo, e o Anunnaki ficou ali, se perguntando:



– Que criatura será esta?



Minha estada na pitoresca cidade Catarinense está muito agradável.



Finalmente tive sossego para me dedicar à tradução das tábuas. Estou hospedado, com nome falso e sem cabelos e barba, em um bom hotel e me apresento a quem perguntar, e muitos perguntam, como tradutor de obras literárias, o que não é totalmente mentira. Tudo estava correndo bem até que, constatei algo que me deixou terrivelmente preocupado.



Meu dinheiro está acabando.



Busquei na memória quais habilidades poderia usar para ganhar algum dinheiro, sem precisar me identificar. Sempre trabalhei na área acadêmica e com tradução de textos antigos, e, para ambos, é preciso apresentar os diplomas e credenciais, o que está fora de cogitação.



Divagando em pensamentos, comecei a questionar sobre as utilidades práticas de meus conhecimentos. Nosso trabalho diário, rotineiro, não é uma coisa que pensamos normalmente, simplesmente o fazemos. Perguntei a mim mesmo se, o que fiz até agora e todos os conhecimentos adquiridos durante minha vida tinham, de alguma forma, alguma utilidade prática para o mundo e para evolução humana.



Passamos boa parte de nossas curtas vidas estudando, adquirindo conhecimento, para depois, nos empregarmos, se tivermos sorte, em alguma grande empresa, onde passamos o restante de nossa curta vida, trabalhando em pró de algum ganho financeiro, às vezes bom. Mas muitas vezes, que nem sequer dá para pagar nossas contas. Mas mesmo assim, continuamos trabalhando.



E se ocorresse uma catástrofe, algo que precisássemos a todo custo sobreviver. Um momento em que todo conhecimento e habilidades tivessem como ponto focal a manutenção da vida. Será que meu conhecimento, aquilo que sempre fiz, no dia-a-dia, teria alguma valia? Toda aquela minha experiência, que exponho, orgulhosamente, em seu “curriculum vitae”, teria alguma utilidade prática?



Parece que algo invisível, sinistramente oculto, nos empurra, mesmo sem que queiramos, mesmo sem sabermos o motivo, mas, nos empurra, para desempenharmos aquilo que não gostamos e que não desejamos fazer o resto de nossas curtas vidas, mas que, por alguma razão, precisamos fazer... e sempre continuamos fazendo.



- Nossa. Lançaram um novo modelo de carro que preciso comprar! Mas... eles não lançam sempre?







***







O Anunnaki estava se recuperando muito bem, e agora, já podia até, sair da caverna e, mesmo com alguma dificuldade, se virar sozinho. Ninsun veio vê-lo pela última vez, já havia arrumado tudo para seguir, juntamente com seu filho, para bem longe. Havia extraído bastante sal, e não pretendia voltar, nunca mais, a esta praia.



- Então é isso - falou ela ao Anunnaki -, agora é por sua conta. Adeus!



- Como assim adeus - respondeu o Anunnaki -, porque vai me abandonar?



- Eu já fiz minha parte, agora já pode cuidar de si próprio.



- Para onde vai?



- Não é da sua conta.



- Então, deixe-me acompanhá-los?



- Como acompanhá-los. – Respondeu Ninsun nervosa - Eu estou sozinha aqui!



- Sozinha com seu filho?



O Anunnaki não tinha certeza de que o estranho menino que o visitou na caverna era realmente seu filho, apenas jogou a isca. Sabia que não conseguiria sobreviver sem ajuda nesta parte do planeta, ainda mais porque não estava totalmente recuperado, e também, porque não tinha a mínima idéia de como voltar para Eridu.



Ninsun mostrou-se visivelmente nervosa com o que o Anunnaki falou. - Como ele pode saber sobre Gil? – Pensou, mas tentou disfarçar.



- Não sei do que você está falando!



- Ele é um hibrido, não é? Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, isso iria acontecer...



Neste momento Ninsun nem pensou.



Como uma fera selvagem, pulou ferozmente sobre o Anunnaki. Apesar de bem menor, conseguiu derrubá-lo. Ele não esperava pela sua reação, e também, não estava totalmente recuperado. Com ele no chão, Ninsun encostou a ponta de sua faca de sílex no pescoço do Anunnaki, e falou:



- Se acontecer qualquer coisa com meu filho eu te mato. Eu juro que te mato!



- Sei que você não mata. – Respondeu o Anunnaki com certo receio - Vocês, os Lulus, são seres de bom coração, jamais matariam. Não se preocupe, jamais esquecerei o que me fez. Nunca deixarei que façam nada de mal com você ou com seu filho. Eu prometo!



Ele estava certo. Ninsun não lhe faria mal, mas, sabia que não poderia confiar no Anunnaki e que, a única chance que tinham era ir o máximo possível para o norte, agora com cuidado redobrado. Ela foi tirando lentamente a faca do branco pescoço do Anunnaki e, sem parar de encará-lo, começou a levantar.



Ninsun já estava quase em pé, sempre apontando a faca de sílex para o enorme ser albino, que também já começava a levantar. De repente, quando menos esperava, o Anunnaki sente uma dor terrível em sua cabeça.



É atingido por uma forte pancada, e cai novamente no chão. Indefeso, gemendo de dor.



- Nebo, o que tem dentro deste quarto? – Pergunta Lizi, curiosa em relação ao aposento da casa que ninguém entrava.



- Aqui eu montei um pequeno CPD em Nippur. Venha eu te mostro. – Respondeu Nebo, sempre carinhoso.



O CPD, ou Central de Processamento de Dados, é o lugar onde Nebo guarda, cuidadosamente, o servidor central onde, antes da construção dos geradores pirâmide, fazia backup das informações de todos os computadores de Nippur, para caso de problemas com o frio, que batizou de “Grande Cérebro”. Com toda a atenção e amor, Nebo mostrou a Lizi o seu funcionamento e como utilizá-lo.



- Ainda está copiando arquivos dos computadores de Nippur? – Perguntou à curiosa Lizi. Aliás, ela se mostrou a companheira ideal para Nebo, além de carinhosa, divertida, ainda gostava muito de informática. Podemos dizer que Nebo “juntou o útil ao agradável”.



- Sim meu amor, ainda está copiando os arquivos, achei mais seguro. Nunca se sabe quando um computador biológico vai morrer.



- E você já viu os arquivos gravados aqui?



- De forma alguma. – Respondeu rapidamente Nebo - Seria anti-profissional, além de antiético. Os arquivos, apesar de estarem aqui na nossa casa, são de seus proprietários. – Nebo sempre fora muito profissional, e se orgulhava disso.



- Você tem razão querido. – Falou Lizi, meio envergonhada - Mas que dá curiosidade, dá!



- Com o tempo passa, e você nem se lembra que os arquivos existem. – Concluiu Nebo com um largo sorriso em seu rosto.







***







Ninsun não imaginava que Gil estava vendo tudo, escondido atrás de uma árvore.



Ao ver a mãe ameaçando aquele ser estranho e albino, não hesitou. Passou a mão em um pedaço de madeira e correu ao encontro dos dois, no intuito de ajudar sua mãe. O Anunnaki foi surpreendido com uma paulada em sua cabeça. Gil ainda é uma criança, mas está maior que sua mãe, em tamanho e, é muito forte.



Realmente a paulada machucou. Mas, ele não conteve seu ímpeto, continuou batendo no Anunnaki com o pedaço de madeira, mesmo ele já estando caído.



- Pare com isso Gil! – Gritou sua mãe, enquanto o Anunnaki rolava pelo chão, tentando inutilmente, se livrar de Gil.



Ninsun precisou de muito esforço para conter a fúria de seu filho. Precisou até se colocar entre os dois obrigando Gil a parar. Depois de controlá-lo, teve ainda que cuidar dos novos ferimentos do Anunnaki



- Você é muito forte meu amigo... ai! – Reclamou o Anunnaki a Gil, enquanto Ninsun limpava o novo ferimento em sua alongada cabeça.



Gil não respondeu. Estava sentado na areia olhando desconfiado para o estranho. Ele pressentia, de alguma forma, que podia confiar no Anunnaki, mas ao ver sua mãe brigando, não teve dúvidas sobre qual lado escolher.



- Gil é um guerreiro. – Falou Ninsun. – Nasceu de uma mãe guerreira, e só está aqui hoje graças a esta garra!



- Qual é a história de vocês dois? – Perguntou o Anunnaki – Ai! Cuidado, está doendo...



- Fala como se não soubesse! – Respondeu Ninsun esfregando o corte com raiva o que fez o Anunnaki gemer de dor. – Pronto, não vai infeccionar! – E sai brava, puxando Gil pelo braço, para a caverna no alto do morro, local onde estavam escondidos.



A noite foi longa para Ninsun, equipada com os óculos de visão noturna que trouxe em sua fuga, passou a noite toda observando se o Anunnaki não os seguira. Sabe que eles não dormem todas as noites como os Lulus.



O dia clareou e nada do Anunnaki. Vários dias passaram sem que Gil e o Anunnaki se encontrassem novamente. Ninsun continuou realizando todo o trajeto para cuidar dos dois, e passava as noites em claro, vigiando.



- Mãe, você está muito abatida. – Falou Gil preocupado. – Precisa descansar!



- Tem razão Gil. Fazem varias noites que não durmo. - Respondeu Ninsun - Estou exausta!



- Porque não dorme um pouco, agora ainda está dia e não tem perigo. Eu fico de guarda.



– Estou precisando mesmo. Então tá. Fique de olho, e qualquer coisa me acorde. – E concluiu - Nada de sair da caverna. Aproveite para fazer sua lição, estamos relaxando muito com seus estudos.



- Tudo bem, mãe. Pode dormir sossegada.



Nem bem deitou e Ninsun já adormeceu, estava realmente muito cansada.



Quando acordou, achou que havia dormido apenas alguns minutos, mas olhando para fora da caverna, descobriu que já estava escurecendo. Olhou para os lados e não viu Gil. Apreensiva, o chamou:



– Gil! – Nada de resposta – Gilgamesh! – Repetiu e nada de ser atendida.



Levantou-se num pulo, e saiu desesperada a sua procura. Nem perdeu tempo e começou pela caverna do Anunnaki, e como já desconfiava, lá estava Gil.



- Eu não te falei para não sair da caverna! – Gritou com Gil.



- Eu sei mãe, só vim para me certificar se ele não precisava de nada. Ele ainda está ferido. – Falou Gilgamesh com um tom carinhoso - Além do mais, já terminei toda a lição!



- Seu filho é maravilhoso! – falou o Anunnaki.



- É eu sei. Por isso mesmo, preciso protegê-lo... de vocês!

Depois de muito discorrer sobre o assunto, cheguei a uma conclusão bombástica: não sei ganhar dinheiro.



Muitos colegas já haviam falado sobre isso comigo, sobre como eu, com meu conhecimento e anos de estudo, deveria estar em uma universidade maior, certamente em outro país, ganhando em Euro. Mas gostava de onde lecionava, me sentia feliz e, para mim, era isso que importava.



Agora, no entanto, não possuo nem minhas aulas, e meu acanhado salário de professor. Não imaginei nada que pudesse fazer para levantar algum recurso, pelo menos, nada que conseguisse utilizar meus conhecimentos.



Minha única idéia foi vender o que possuo de valor em meu apartamento. Teria que vender qualquer coisa que não houvesse a necessidade de transferência de documentação, como carro ou o próprio apartamento, este realmente, não tenho nenhuma intenção em vender. Em meu apartamento, possuo muitos eletrônicos e algumas obras de arte, não muito valiosas, mas que, com a venda, poderia levantar algum dinheiro.



Mas como vender sem voltar a Curitiba?



Teria que pedir ajuda, e a única pessoa que lembrei, e que sei com absoluta certeza que me ajudaria sem pestanejar, é minha amiga Mari.



Comprei um cartão telefônico, fui até um orelhão próximo e fiz a chamada.



- Alô. – Falou a pessoa.



- Alô, Mari? – Perguntei.



- Sim, quem está falando?



- Val sou eu, Prawdanski!



- Prawdanski? Por onde você anda? Fiquei preocupada, achei que haviam te capturado!



- Não, eu consegui fugir... preciso te pedir um favor.







***







Os dias foram passando e Ninsun foi relaxando.



Agora já deixava Gil e o Anunnaki juntos, mas estava sempre de olho e, para dormir, sempre levava Gil até a caverna no alto do morro deixando o Anunnaki próximo a praia. Começou a entender que o Anunnaki precisava realmente de sua ajuda, e que, por enquanto, não faria mal a Gil, aliás, tentava a todo custo ser amigo dele, talvez porque lhe seja familiar, afinal, o pai de Gil é um Anunnaki. Ela precisava descobrir mais sobre o estranho, e saber como e porque chegou até aqui. Mas, precisava ser cautelosa, os Anunnakis são, por sua natureza, dissimulados. Aproveitou à hora da refeição para tentar, sutilmente, levantar alguma informação.



- Me diga uma coisa – perguntou Ninsun -, como se feriu tanto? Se não o houvéssemos encontrado, certamente estaria morto!



- É verdade. E serei eternamente grato pela sua bondade. – Respondeu formalmente o Anunnaki – Já estou perdido há muito tempo, e me machuquei tentando voltar para os meus, para a Eridu.



- Eridu? – Perguntou Gil – O que é Eridu?



- Eridu é uma cidade Anunnaki, aqui em Nippur! – Respondeu o Anunnaki.



- Cidade? – Perguntou Gil ficou curioso.



Sua mãe sempre lhe falou das grandes cidades de Nibiru, mas nunca lhe falou sobre uma cidade em Nippur, e o motivo era simples: a curiosidade de Gil, que certamente o levará para lá.



- Sim Gil, existe uma cidade aqui perto. – Respondeu o Anunnaki.

quarta-feira, abril 25, 2012

As Tábuas de Nippur - Génesis (parte 2)


Após muitas noites, separados, Nebo está novamente deitado sozinho em sua cama, quando sente alguém deitar ao seu lado, vira-se para ver quem é, e, para sua surpresa, vê Lizi. No momento em que ele foi falar, ela faz sinal para fique quieto e o beija. Foi uma noite mágica, a primeira vez dos dois. Quase não se falaram, não precisava, pareciam saber exatamente o que o outro pensava.



Eram, neste momento, uma simbiose perfeita.



Ao amanhecer, depois de vários dias juntos, finalmente Nebo conseguiu servir a ela o café da manhã, na cama. Cama esta, que agora estão dividindo.







***







O assessor entra no gabinete.



Atrás de sua enorme mesa, sentado em uma confortável poltrona, está o Chanceler.



O assessor acaba de voltar de Nibiru. As viagens entre os dois planetas, sempre ocorrem quando há aproximação de suas órbitas, a cada 3600 anos de Nippur. Isso é essencial para economia de energia no transporte. Mas a viagem do assessor foi uma exceção, precisava se certificar de que nenhuma informação indevida fosse ventilada.



- Como foi à conversa? – Pergunta o Chanceler.



- Perfeito, ela não dirá nada! – Responde o assessor.



- Já imaginava. Ela sabe que irá prejudicar a si própria se contar. E sobre seu pai?



- Ela continua achando que foi um acidente!



- Ótimo. Isto foi necessário, certamente ele a convenceria a desistir. Tudo está saindo de acordo com o que previ. – Tomou um longo e saboroso gole de seu drink. – Agora posso prosseguir com os planos. Nada, nem ninguém, poderá me impedir!



Um animal acuado.



Essa é a melhor expressão para o que sinto neste momento. Depois de ver minha foto no jornal com a manchete sobre o assassinato do professor da USP, parecia que todos estavam me condenando e prontos para chamar a policia.



Como iria escapar? Não poderia pegar taxi nem ônibus, muito menos entrar em algum hotel ou sequer, ficar parado, no centro de Curitiba.



Ao meu lado parou um caminhãozinho. O motorista e o ajudante abriram o compartimento de carga e entraram no furgão. Em pouco tempo, cada um saiu, com um grande pedaço de carne nos ombros, e seguiram em direção a um açougue. Não raciocinei, e, agindo de forma impulsiva, pulei para dentro do furgão e me escondi atrás dos pedaços de carne. Em pouco tempo o motorista e o ajudante voltaram, fecharam o furgão. Senti o veiculo sendo ligado e começando a andar.



Era um furgão frigorifico, e em poucos minutos, comecei a tremer de frio. Precisava resistir. Encolhi-me em um canto, abraçando a valise com a tábua de argila e os decalques. Precisava me manter aquecido.



Depois de algumas entregas seguidas, nas quais sempre me escondia atrás da carga, finalmente o caminhão começou a andar sem parar por durante vários minutos. Não tinha a mínima idéia para onde iria, mas desde que fosse para bem longe, estava bem, apesar do frio que estava sentindo.



Novamente outra entrega. Pelo tempo transcorrido, achei que já era hora de sair, não deveríamos mais estar no centro de Curitiba e, já não havia muita carne no compartimento para me esconder. Aguardei os dois ocupantes do veiculo pegar, cada um seu pedaço de carne nos ombros e sair. Tirei a cabeça, cuidadosamente, para fora do furgão, para observar onde estávamos.



É um grande depósito, talvez de alguma empresa. Há muitas grandes prateleiras com alimentos, sacos de arroz, feijão, caixas de legumes e verduras... pensei que poderíamos estar em alguma empresa fornecedora de refeições industriais.



Sai do furgão e me escondi atrás de algumas caixas com frutas e, aguardei pacientemente, pela noite, para poder sair com menos risco de ser visto.







***







Aquele lugar não era mais seguro.



Ninsun sabia bem disso. Uma nave de reconhecimento Anunnaki havia passado, poderiam só estar passeando, matando animais por puro prazer, como costumavam fazer, ignorando os pedidos do Doutor Anzu, mas não podiam arriscar. Tão logo terminaram de comer Ninsun falou para Gil:



- Junte nossas coisas querido, temos que ir. Vamos para o leste.



E para o leste eles seguiram, sempre com todo cuidado, sempre se protegendo. Procuravam sempre os lugares com mais árvores ou qualquer coisa que os ocultasse se vistos do céu, e seguiam por baixo, mas olhando com cuidado para o céu. Os Anunnakis não suportam o frio, por isso não vem para esta parte congelada do planeta, então, por terra, eles não viriam, o perigo estava no céu, e em suas naves.



- Gil – falou sua mãe –, olhe sempre para o céu, mas sem se descuidar dos animais selvagens em terra, qualquer coisa estranha que vir, esconda-se o mais rápido possível. Não temos como lutar contra eles e sua tecnologia. Precisamos ser invisíveis.



Caminharam por alguns dias, Ninsun desviou um pouco o caminho para passarem perto do mar, precisavam de sal, e o retiravam da água do mar. Havia algum tempo que não vinham para esta região, pois era mais quente, o que poderia atrair algum Anunnaki. Ela sabia da existência de uma confortável caverna onde já haviam passado algum tempo, e da qual Ninsun tinha boas lembranças. Isso fazia já alguns anos, Gil era ainda bem pequeno, mas ainda assim, lembrou-se do lugar.



Ele gostava muito do mar, havia algo mágico, um tanto melancólico. Sempre sentia um aperto no peito diante daquela massa de água que carinhosamente lambe a branca areia da praia. Sempre se perguntou o que teria do outro lado de toda esta água, sua mãe sempre lhe disse que não havia nada, mas Gil não acreditava – deve ter algo, afinal, a terra é redonda – pensava. Mas o que mais lhe agradava aqui era a temperatura, maior que os outros locais onde passaram, por ele viveriam ali para sempre, mas sua mãe ficava apenas tempo suficiente para conseguir o sal. Sempre repetia que ali não era seguro.



O frio o incomodava muito, apesar de toda a roupa que sua mãe faz com grossas peles de animais, ainda assim sente muito frio. Gostaria de ser como sua mãe que tem uma resistência muito grande às baixas temperaturas - Talvez quando crescer! – pensava, e este pensamento o confortava, porque, em um mundo como o seu, coberto de gelo, precisava criar resistência e pegar gosto pelo frio, ou, sofreria pelo resto da vida.



Gil reconheceu a caverna imediatamente e, saiu em disparada na sua direção. Queria ver como estavam os desenhos que fez, juntamente com Hughu da última vez que estiveram ali. Mas, ao chegar próximo a entrada da caverna, algo o deteve. Não sabia o que era, mas algo o perturbou e, ele parou. Sentia que havia algo diferente naquela caverna. Algo, que ele não conhecia.



- Tem algo lá dentro mãe! – falou Gil.



- Você viu alguma coisa Gil?



- Não!



- Então como sabe?



- Não sei como! Mas eu sei... que tem algo lá, eu posso sentir!

A noite chegou, e como tinha previsto o fluxo de pessoas cessou.



Sai de meu esconderijo e fui até o banheiro, a natureza me chamava. É um banheiro grande, com um enorme vestiário e vários armários de metal, certamente onde os funcionários guardam suas coisas e, entre eles, há vários bancos largos, feitos de madeira.



Sobre um dos bancos um jornal estava esquecido. Peguei-o na esperança de encontrar a matéria onde me acusavam pela morte do amigo de Mari, queria ver mais detalhes sobre o crime ao qual estavam me acusando. O jornal era de outra agencia de notícias, mas, para minha decepção, também apresentava a matéria do assassinato, e a minha foto.



“Briga por relíquia arqueológica motivou o assassinato



A policia diz não ter dúvidas quanto ao autor e a causa que levaram ao assassinato do professor da USP. Segundo a policia de SP, o assassino seria o também professor, Doutor Prawdanski (foto). O crime teria sido motivado pela posse do artefato arqueológico a que o professor assassinado se referiu em sua página pessoal. “A vaidade em se promover no meio acadêmico foi o estopim do crime” disse o delegado encarregado do caso. “Não temos mais nenhuma dúvida quanto ao executor”, completou.



O assassino continua foragido, e a policia pede para que, se alguém tiver alguma informação, deve ligar para o disque denuncia no numero... “



- Filhos da mãe! – Falei jogando o jornal sobre o banco – Que mentirosos!



O jornal caiu aberto bem na pagina com minha foto. A minha frente havia um espelho, comparei-me com a foto, era facilmente reconhecível. Precisava, urgentemente, fazer algo, precisava mudar minha aparência.



Vasculhando no vestiário, encontrei o que precisava para a mudança. De posse dos utensílios, fui para o chuveiro e penosamente comecei minha transformação. Aproveitei para tomar um banho, estava realmente precisando.



Ao sair, procurei novamente o espelho.



Estava muito diferente e... muito feio. Certamente, nem minha mãe me reconheceria, eu próprio não estava me reconhecendo.







***







Ninsun e Gil chegam à porta da caverna. Esta já é uma caverna conhecida, mas havia algo diferente. Ninsun não notara nada, mas Gil sim. Era algo novo para ele, nunca havia sentido nada parecido, tanto que não soube sequer explicar o que sentia para sua mãe.



- Tem algo ali dentro – falou Gil –, e está precisando de ajuda!



- Você está me assustado Gil. Pare de brincadeira!



- Não estou brincando mãe, tem algo lá dentro e eu não sei o que é!



Este é um planeta muito selvagem, Gil pode ter razão, pode existir ai dentro algum animal perigoso, mas precisam de um local para passar a noite, já vai escurecer logo, e fora de um abrigo, poderiam ser facilmente localizados pelos Anunnakis, ainda mais onde estavam. É um local mais quente, e por isso, mais próximo à Eridu, mas é um lugar especial, porque foi ali, nesta caverna que Ninsun deu a luz ao seu filho. Ela própria escolheu este lugar justamente pela temperatura, pois o frio poderia matar Gil que tem uma parte Anunnaki.



Era uma noite de verão, a temperatura estava agradável, porém, como é comum no verão desta parte de Nippur, chovia muito. Ninsun acomodou-se para dormir, havia jantado um pouco de frutas, quando sentiu uma dor muito forte.



- A hora chegou!



Tanto quanto a dor, um enorme medo cresceu dentro de si. Estava sozinha, e iria dar a luz, neste momento sentiu uma ponta de arrependimento de ter fugido, pensou que iria morrer, e começou a chorar.



A dor cada vez aumenta mais, sabia o que tinha que fazer, havia estudado, mas agora não era mais teoria, agora era a vida real. O bebê também não ajudava, já que, é muito grande, maior que um bebê normal de sua espécie, não seria fácil o parto, ela começou a gritar. De repente um relâmpago clareia a entrada da caverna, e ela viu alguns vultos. Eles vêm em sua direção, mas a dor que sente é tão forte que nem se importa com isso. Os seres se aproximam e a examinam a certa distancia, depois falam entre si, Ninsun não consegue entender, e também não os reconhece, são seres de baixa estatura.



As criaturas se aproximam.



Uma segura na mão de Ninsun e a olha ternamente nos olhos, isso traz um pouco de paz, outra vem com uma tigela com água que põe no fogo, logo outra vem com algumas ervas.



Os seres começam com o procedimento do parto, Ninsun não sabe quanto tempo Gil levou para nascer, mas pareceu uma eternidade, certamente não conseguiria dar a luz sozinha. Finalmente o bebê nasceu, e chorou. Uma das kerabulus limpa o recém nascido e o entrega à Ninsun com um sorriso. Ela o pega em seus braços, é um menino e é lindo. Neste momento, ela teve a certeza de que fizera a coisa certa, eles o iriam matar e agora, ele está a salvo em seus braços, a recompensa chegara e era bem maior que ela esperava. Ela abraça o bebê junto ao seu corpo e fala:



- Seu nome será... Gilgamesh!

Durante muitos anos cultivei, orgulhosamente, minhas madeixas.



Sempre me gabava entre meus colegas por não ser calvo – a maioria deles era. Além disso, conservava uma barba vistosa. Talvez por resquícios inconscientes e primitivos de nossos antepassados, mas eu me sentia bem com esta barba. Ela me fazia sentir imponente, másculo, bonito. Apesar de que esta opinião não era compartilhada pelas minhas amigas do sexo oposto que, dizem preferir homens sem barba. Na verdade, às vezes até me chamam de Neandertal.



Não foi fácil para mim. De posse de um aparelho de barbear e um sabonete, que encontrei no vestiário, parti para a raspagem minha tão querida pelagem. Ao olhar no espelho não era mais eu. Não estava me reconhecendo e esperava que ninguém me reconhecesse também.



No retrato que os jornais estão exibindo, meu rosto quase não é visível, sendo coberto por pelos. Agora, com cabelo e barba raspados, esperava passar despercebido, e conseguir fugir para longe, para um lugar onde poderia terminar a tradução das relíquias e, manter minha vida a salvo.







***







- Fique aqui fora Gil! – Falou Ninsun entrando na caverna.



Ela carrega consigo uma lança com ponta de sílex bastante afiada. Foi presente dos kerabulus, juntamente com uma faca do mesmo material. Ela nunca usara a lança, mas a usaria se fosse preciso, tudo para defender seu filho Gilgamesh. Em todo este tempo vivendo sozinha com seu filho, perdeu o medo dos animais selvagens, sabe que não se pode subestimá-los, mas sabe também que os animais os temem da mesma forma.



Sorrateiramente ela foi entrando na caverna, sua lança apontada para frente. O escuro a cegou precisava acostumar sua vista. Apertou seus olhos, tentando ver algo, e foi caminhando vagarosa e cuidadosamente para dentro da caverna. Aos poucos seus olhos foram se acostumando com o escuro, olhou ao seu entorno, foi identificando algumas manchas na parede, o resto de uma fogueira que ela mesma acendera há anos, pinturas feitas por Gil...



Mas, ao olhar em um canto mais escuro da caverna, ela viu algo que jamais imaginara ver, ao menos... não ali. A principio não acreditou, achou que o escuro da caverna estivesse lhe pregando peças. Apertou mais seus olhos, e deu um passo a frente.



A coisa se mexeu!



O susto foi tão grande que ela caiu para traz, sentada no chão.



Foi rastejando de costas na tentativa de escapar, ainda olhou novamente, na esperança de que aquela imagem fosse fruto de sua imaginação, mas não era. Com suas pupilas dilatadas pelo medo, ela pode ver claramente e ter a certeza do que via. Ninsun se vira para porta da caverna, levanta-se e sai correndo, deixa para traz até a sua lança, enquanto grita apavorada:



- FUJA GIL. DEPRESSA FUJA!



Fui para uma pequena cidade no interior de Santa Catarina.



Você pode estar se perguntando, se estou me escondendo, porque falar onde estou. Primeiramente porque quando cito um lugar é porque já faz um bom tempo que já sai dele e estou bem longe, em segundo lugar, porque jamais falarei o nome da cidade, e no mundo, existem muitas.



Uma coisa que se aprende quando se viaja muito é que, normalmente, as cidade tem as mesmas características, igreja, praça, monumento, museu, lojas, hotéis... portanto, mesmo descrevendo detalhes da cidade, ainda assim, será difícil descobrir a qual cidade estou me referindo.



Não foi minha escolha vir para esta cidade de Santa Catarina. Quando sai da fábrica onde raspei os cabelos e a barba, sabia que não poderia ir para rodoviária nem para o aeroporto, então, só me restou pedir carona. E a carona que consegui, foi para esta cidade.



Quem gentilmente me cedeu uma carona, foi com um caminhoneiro que transporta grãos do interior para ser industrializado em uma fábrica da região metropolitana de Curitiba. Conversamos muito durante a viagem, e, aparentemente, não me reconheceu. Parece que minha idéia em mudar a aparência funcionou.



Além de raspar meu cabelo e barba, ainda consegui algumas roupas no vestiário dos funcionários. Eram uniformes da Empresa onde me escondi isso, acredito, ajudou na hora da carona.







***







- O trabalho foi limpo Kalkal? – pergunta o Chanceler.



- Como sempre, Senhor. – Responde Kalkal – O inventor criou seu último protótipo!



Kalkal é o Anunnaki de confiança do Chanceler para realização de trabalhos considerados desagradáveis, mas necessários aos seus planos, como retirar de seu caminho alguém que não esteja agindo de acordo com o esperado. Era o que o Chanceler costumava chamar de “a última alternativa”.



- Excelente – falou o Chanceler -, e o comunicador?



- Recolhido como prova, juntamente com o tigre dente-de-sabre e com os restos de Edi, seu inventor.



- Destrua-o, não posso correr o risco de existirem comunicadores não oficiais em Nippur. Informações são perigosas se não monitoradas. Meus técnicos conseguiram interceptar as mensagens que não continham nada de mais, mas, estavam direcionadas para Nibiru e não quero este tipo de comunicação, pode ser enviada alguma informação que não deveria chegar aos ouvidos de certos Anunnakis e...



A conversa foi interrompida pelo barulho da porta de seu gabinete se abre com uma pancada. Anzu entra arrastando consigo um segurança e a secretária do Chanceler. Está muito exaltado.



- Me deixem, preciso falar com você Chanceler. – Gritou Anzu.



- Podem soltá-lo! – Falou o Chanceler para o segurança que está agora agarrado ao pescoço de Anzu e para sua secretária que vinha arrastada agarrada à sua perna.



- Como ousa liberar a matança de animais nativos? – Gritou Anzu com o dedo apontado para o Chanceler.



Anzu fazia parte de um grupo de ambientalistas de Nibiru.



Já haviam realizado protestos, e todo tipo de sabotagem com empresas e pessoas que desrespeitavam o meio ambiente. Seu grupo foi o responsável pela conscientização, que acabou virando a lei, e que proíbe da criação de seres artificiais e sua inclusão em Nibiru, lei esta que impede aos Lulu Amelus de serem exportados para aquele planeta.



Anzu deixou o grupo para seguir como voluntário para Nippur, sua autorização para ser biólogo neste planeta somente foi concedida quando ele se desvinculou formalmente do grupo de ambientalistas. Isso deixou muitos dos seus antigos colegas chateados, achavam que ele era um vira-casaca, mas, na verdade veio para Nippur com uma missão, e já provara isso aos seus companheiros em Nibiru.



- Por favor, sente-se. – Respondeu educadamente o Chanceler apontando para uma cadeira ao lado de Kalkal.



Kalkal levanta-se para sair, ao que é impedido pelo Chanceler que ergue uma das mãos ordenando que fique. Ordem diferente recebe a secretária e o segurança, que são convidados a se retirar.



- Nós havíamos combinado que a matança de animais acabaria, e agora você mesmo autoriza! – Falou o indignado Anzu.



- Primeiramente doutor, bom dia! – Falou irônico o Chanceler - Depois, eu não autorizei, nem autorizarei nenhuma matança!



- E os grupos de remoção?



- Se o doutor se informar, saberá que é somente questão de segurança, você soube o que o tigre dentes-de-sabre fez com um engenheiro nas aralis? – Ele se referia ao Edi, o inventor do comunicador, que, inexplicavelmente fora atacado pelo animal dentro de seu alojamento trancado.



- Sim, eu soube. Mas isso não é motivo para uma matança, nós invadimos sua casa. – Contestou Anzu, ainda exaltado. - Este planeta é destes animais, nós somos estranhos aqui, e temos que respeitá-los!



- As ordens são para remover os animais e, somente os perigosos e que estiverem próximos de Eridu ou das minas, e não matá-los!



- Mas não os estão removendo, os estão massacrando!



- Doutor Anzu – o Chanceler toma fôlego, tentando manter-se calmo -, esta sua atitude é extremamente infantil. O Doutor já havia me acusado anteriormente e, provei que não estava por traz de matança nenhuma, agora vem você novamente com acusações. Está ficando desagradável. – E fez um desafio – Porque não prova o que está alegando!



- Não tenho provas... não agora, mas tenho certeza!



- Se está assim, tão desconfiado, porque não fiscaliza pessoalmente os grupos de remoção? Vá pessoalmente com eles, e confirme que o trabalho é somente para segurança dos Anunnakis. Não existe matança e se existir não foi por minhas ordens e punirei severamente os responsáveis. Mas exijo provas, sem elas, por favor, não volte mais ao meu gabinete!



- Sim, é isso que vou fazer, e filmarei tudo. – Afirma Anzu, ainda não convencido – Trarei a prova da matança e exigirei a punição dos culpados!



- Claro, me traga a filmagem que punirei, pessoalmente, o infrator.



Anzu sai do gabinete, decidido a provar que as carcaças que encontrou são resultado do trabalho dos grupos de remoção do Chanceler. Kalkal, que só observou a cena, vira-se para o Chanceler e pergunta:



- Quer que algum acidente ocorra com o Doutor Anzu?



- Não! – respondeu pensativo o Chanceler. – Ainda não, seu gênio impulsivo pode ser útil aos meus propósitos. Além do mais, sua morte poderia atrair mais dos seus para Nippur. Ai sim, eu teria problemas.



O susto dentro da caverna foi tão grande que Ninsun caiu para traz, sentada no chão.



Ela grita, desesperadamente, para que Gil, seu filho, fuja. Sua lança fica na caverna, mas contra este tipo de perigo, sabe que seria inútil.



Mesmo na fuga, não consegue esquecer aquela imagem. Ali estava ele, bem em sua frente, deitado em um canto da caverna. Ao vê-la estendeu a mão tremula em direção a Ninsun, e suplicou ajuda. Sua voz trouxe um flash em sua cabeça de tudo que passou na cidade e, por impulso, fez exatamente o contrário, ao invés de ajudar, levantou-se virando em direção á saída da caverna, e saiu correndo cambaleante.



Ainda não acreditava no que vira.



- Como isso era possível?



Olhou para todas as direções procurando por outros



- Eles não andam sozinhos. - Pensou - Preciso proteger Gil.



Dentro desta caverna, exatamente onde Gil nasceu, lá estava ele, um agonizante Anunnaki, implorando pela sua ajuda.



Pôde ver claramente a sua brancura, os Anunnakis são albinos. Seu planeta não possui sol, portanto, não precisam de melanina para protegê-los. Também são bem maiores e possuem o crânio mais alongado que os Lulus. Ela tem certeza do que vira, não existe neste planeta nada que possa ser confundido com um Anunnaki.



- Gilgamesh, onde está você? – Chama preocupada, porém, em voz baixa, por medo que outros Anunnakis ouçam.



- Aqui mãe! – Grita Gil que está no alto de uma árvore.



Não havia dúvidas em sua cabeça, enquanto podiam, precisavam fugir. Ninsun agarrou Gil pelo braço, e o puxou correndo em direção à floresta fechada.



- O que aconteceu mãe?



- Corra Gil, não há tempo para explicações...



Os dois só pararam quando encontraram, bem longe, uma pequena caverna no alto de uma pequena montanha. Ao chegarem já era noite e os dois estavam sem fôlego, ambos sentaram no chão, exaustos. Gilgamesh estava extremamente curioso, queria saber o que havia dentro da caverna, e porque ele sentiu a sua presença, mas não conseguia perguntar, precisava respirar. Depois de longos minutos, e agora já recuperados, Gil falou:



- Precisamos voltar, imediatamente!



Ninsun não entendeu. Varias coisas se passaram em sua cabeça, especulando sobre o porquê deste desejo de Gil em voltar para perto do Anunnaki. Cada explicação era mais perturbadora que outra. Finalmente, ela criou coragem e perguntou:



- Porque você quer voltar até aquele lugar Gil?



- Porque... eu deixei lá minhas pedras para quebrar nozes.



Ela esboçou um sorriso. Como as crianças são inocentes e não vêem o perigo, mas Ninsun soube, nesta hora, que havia chegado à hora, Gil não poderia ter medo do que não sabia que existia. Precisava contar a Gil sobre os Anunnakis.



- Gil – ela falou com um tom maternal –, eu preciso lhe contar uma coisa, uma coisa que venho esperando o momento certo, e acho, o momento é agora. Sempre procurei poupá-lo disto por durante toda a sua infância, mas agora você já é um adolescente e creio que vai entender, além do mais, acho que estamos em perigo e, se algo nos acontecer, você tem o direito de saber o por que.



Ela contou para Gil a sua história, como foram criados para servir de escravos, quão cruéis são seus criadores, os Anunnakis, e principalmente sua fuga para salva-lo. Tentou ser o mais delicada possível, poupando-o dos detalhes mais sórdidos. Gilgamesh, como era de se esperar, ficou cheio de perguntas, e louco para conhecer os outros como eles, e era isso que Ninsun sempre temera. Conhecendo seu filho, tinha medo que ele fosse de encontro aos seus, o que ela tinha certeza, seria a sua morte. Para cortar um pouco as perguntas dele, Ninsun mudou o foco da conversa, e contou o que havia dentro da caverna.



- Ele está lá Gil, deitado. Parece ferido, mas poderia estar fingindo, eles são bons nisso. – Ela tomou coragem, e concluiu. - Era um Anunnaki!



- Mãe, ele não está fingindo. Ele está mesmo ferido, e precisa de ajuda.



- Como pode ter certeza Gil?



- Não sei mãe. Eu senti algo, é como se eu soubesse o que ele está pensando.



Este sentimento de Gil era muito estranho, Ninsun nunca ouvira que alguém conseguisse saber o que outra pessoa está pensando, pelo menos não sem vê-la. O corpo revela pensamentos, isso ela sabia. Alguns Lulus tem esta habilidade, às vezes parecem que conseguem ler mentes, mas, na verdade, é só leitura corporal. Olhares, gestos, expressões... tudo pode revelar pensamentos. Gil não tinha visto o Anunnaki, como poderia saber o que pensava. Imaginou se não poderia ser um truque dos Anunnakis.



Resolveu não seguir com esta conversa agora. Ajeitou um canto para Gil dormir, ele reclamou que estava com fome, mas ela explicou a ele, que era muito perigoso sair, melhor esperar amanhecer. Os Anunnakis possuem óculos de visão noturna e o que Ninsun trouxe na sua fuga, havia ficado com suas coisas perto do mar e da caverna onde está o Anunnaki.



Em pouco tempo Gil dormiu, mas Ninsun passou a noite em claro. Não conseguia esquecer do Anunnaki.



- E se realmente precisar de ajuda? Não posso deixar uma criatura sofrendo, ainda mais quando me implorou por socorro! – Estes pensamentos martelaram em sua cabeça a noite toda.



Quanto Gil acordou o dia já estava claro e, havia algumas frutas dentro da caverna, sua mãe as havia colhido em uma árvore próxima.



- Coma Gil. – Falou Ninsun – A mãe precisa fazer uma coisa.



- O que mãe? – Perguntou Gil já com a boca cheia de fruta.



- Vou ajudar aquele Anunnaki!



- Mas porque mãe, eles não são maus, merecem sofrer.



- Filho – Ninsun abaixou-se próximo a Gil e, calmamente falou -, eles são maus, mas nossa espécie é boa e solidária, ele me pediu ajuda, tenho que ajudá-lo. Põe-se no lugar dele, como você ficaria se precisasse de ajuda, e não obtivesse?



Gil nem precisava se por no lugar do Anunnaki, sabia bem o que ele estava sentindo, como se o sentimento fosse dele próprio. O Anunnaki estava com medo, achava que ia morrer, e sentia dor e muita sede.



- Mão – falou Gil -, leve água para ele mãe!



Ninsun sorriu um sorriso meio forçado. Tinha medo de não ver Gil novamente, medo de não voltar, de estar indo para uma armadilha. Deu um beijo carinhoso em seu filho, fez recomendações para que não saísse da caverna até ela voltar, e foi em direção ao Anunnaki.



Gilgamesh, ao contrário de sua mãe, não se preocupou. De alguma forma sabia que o Anunnaki estava sozinho e, pelo menos por hora, era indefeso.



O Chanceler está em frente ao seu computador biológico.



Desde os tempos de universitário, é seu costume criar anotações, rascunhos de seus planos, pensamentos e idéias. Isso o ajuda a pensar, a se organizar. Sempre soube bem dos riscos de expor suas idéias em mídia. – As informações poderiam ser “hackeadas”. – Mas não em Nippur.



Tem muita confiança em Nebo, aliás, fora Kalkal é o único em quem realmente confia. Mais até do que no seu assessor. Nebo já provara, por diversas vezes ser um profissional exemplar e, sobretudo, discreto. Jamais revelaria ou se apoderaria de arquivos que não lhe pertencem e, em Nippur é o único com conhecimentos para tal.



- O que fazer com Anzu? – Esta era a pergunta.



Ele já havia dado muito trabalho, mas não poderia dar a ele o mesmo destino que reservara a outros. Sua morte certamente alvoroçaria seus amigos ambientalistas e certamente traria o foco da imprensa de Nibiru sobre Nippur, e isso não poderia acontecer.



O Chanceler sabe bem a força que eles possuem, foi graças aos ambientalistas, mais precisamente, graças a Anzu que o próprio rei Anu obrigou-se a realizar uma viagem não programada à Nippur.



E não veio a passeio, veio movido por um motivo mais grave. Veio para prender o Chanceler Enlil.







***







- Majestade, a frota já está preparada para seguir até Nippur, tão logo ocorra o alinhamento orbital. – Falou o assessor do Rei.



O momento esta chegando, e Anu está tenso com o que iria ocorrer, afinal, Enlil é seu amigo pessoal, além de um grande líder político. Já foi Primeiro Ministro, o cargo administrativo mais importante de Nibiru, cargo este, que abriu mão para seguir a aventura de desbravar Nippur. Anu nunca entendeu esta decisão de seu amigo, mas, sempre soube que Enlil não suportava de viver à sombra de seu pai, e de sua pesquisa que o alçou a herói dos Anunnakis, sabia de sua constante necessidade em superar o seu pai, mesmo agora, que já estava morto.



Não seria nada agradável prende-lo, mas as leis precisam ser respeitadas, e elas se aplicam a todos, inclusive a ele, o Rei, e ao Chanceler de Nippur.



Enlil, seu irmão Enki e Anu cresceram juntos, como irmãos. Seus pais foram grandes amigos, e parceiros na salvação de Nibiru. Prender Enlil será uma tarefa árdua, e ele, como Rei, é quem deve executá-la. Sente que deve isso à Enlil, a Enki e até aos finados heróis de Nibiru. Virou-se para seu assessor e disse:



- Prepare minha espaçonave, eu irei pessoalmente para Nippur!



- Majestade - argumentou o assessor -, Nippur é um planeta hostil, selvagem, com instalações precárias...



- Eu sei disso. – Interrompeu o Rei - Mas é meu dever prender, pessoalmente, Enlil. Afinal, ele não é um criminoso qualquer - deu uma pequena pausa –, além do mais, já está na hora de assumir o controle de Nippur, que agora pertence ao meu reinado. Providencie para que possamos decolar no primeiro momento possível.



E o primeiro momento chegou.



A comitiva do Rei decola e, aos poucos vai avançando pela atmosfera. Passar pela proteção térmica é uma emoção à parte. Por alguns segundos, somente o que se vê do lado de fora da espaçonave é uma enorme mancha dourada, belíssima. O tilintar das partículas raspando na fuselagem confere um tom melódico ao momento.



Tão logo ultrapassaram a barreira dourada, revelou-se um universo grandioso e lindo, pontuado com milhões de estrelas, formando um grande tapete bordado de brilhantes. Essa é uma visão privilegiada para um Anunnaki, nunca possível a partir do solo de Nibiru. Este foi, por séculos, o motivo pelo qual os Anunnakis nunca se aventuraram no espaço. Não possuem o privilégio de olhar a noite para o céu e imaginar mil coisas a respeito daqueles pontos de luz, formar desenhos imaginários unindo-os, questionar se existiriam planetas em torno de cada um e se, talvez, em alguns deles haveria vida e, quiçá até, vida inteligente.



Anu estava em seus aposentos dentro da espaçonave, era sua primeira vez no espaço e deveria estar extremamente excitado com a experiência, porém, estava aflito e tenso.



Iria fazer algo que não gostaria, ficava imaginando como falaria com Enlil, como ele reagiria, como ele, Anu, se sentiria ao prender seu amigo Enlil. Começou a pensar em seu pai e em como ele agiria nesta situação.



Seu pai Anun, juntamente com Eni, o pai de Enlil e Enki, salvara todos os Anunnakis de um fim certo e terrível, um fim, ocasionado pelos próprios Anunnakis e seus atos inconseqüentes. Os dois Anun e Eni assumiram o governo do planeta, agora unificado. Anun tornou-se Rei de Nibiru, enquanto Eni, que era cientista, por escolha própria, tornou-se Ministro de tecnologia, o que contribuiu, entre outras coisas, para o prolongamento indefinido do tempo de vida dos Anunnakis.



O Rei Anun era sensato, imparcial e sempre tomou decisões acertadas, elevando a vida em Nibiru a um novo patamar de prosperidade.



Anu gostaria muito de ser como seu pai, mas, sabia que, por mais que se esforçasse não conseguia, não possuía a liderança e a sabedoria de Anun. Ele assumiu o cargo vitalício quando seu pai faleceu, graças a um acidente enquanto montava gogons selvagens, seu pai adorava grandes aventuras. Desde criança Anu fora criado para substituir o Rei e seu pai o educou para isso. Para Anu, esta fora a única tarefa em que seu pai não obteve existo, em parte porque, ele próprio sequer imaginava que algum dia seu pai morreria e quando morreu Anu não estava preparado o suficiente.



O chefe da segurança de Nippur comunicou a aproximação de uma esquadra de espaçonaves, que chegaria em breve, e juntamente com elas, está à espaçonave real.



Ao saber da informação, o Chanceler Enlil não se surpreendeu. – Sou muito importante para ser preso como um qualquer. – pensou, afinal, o Rei em pessoa estava vindo e certamente, este seria o motivo da visita. A amizade com Anu seria de grande valia nesta hora, sempre conseguiu manipulá-lo, desde que eram crianças.



A frota pousou, era composta por cinco naves: a do Rei, duas da guarda real e duas que fazem o transporte regular entre os planetas. A chegada das espaçonaves foi uma visão incrível, principalmente para os Lulu Amelus, que nunca as tinham visto. Seus cascos lustrosos brilharam com o sol de Nippur, seus foguetes lançavam chamas e um forte estrondo se fazia ouvir a quilômetros.